Aplicar simultaneamente programas de vacinação infantil e de planejamento familiar é a fórmula escolhida por Ruanda para promover seu desenvolvimento socioeconômico.

Cerca de 50 mulheres sentam-se ordenadamente na sala principal da clínica Musha, no distrito de Rwamagana, a 45 quilômetros de Kigali.
Algumas levam seus filhos de mais de cinco meses nas costas; a maioria os cobrem, envolvendo-os em mantas coloridas.
São mães que caminharam até a clínica para vacinar, pesar e medir os filhos, mas também para consultas médicas e atendimento de planejamento familiar.


"É essencial que se controle a taxa de natalidade ao mesmo tempo em que se aplica o programa de vacinação, para evitar o que se conhece como a 'armadilha demográfica', esses anos em que cai a mortalidade infantil, mas não os nascimentos", explica Jorn Heldrup, responsável pela África Oriental da Aliança Global para Vacinas e Imunização (Gavi).


Heldrup adverte que esses anos são críticos, mas, uma vez superados, a taxa de natalidade cai drasticamente quando os pais comprovam que seus filhos não morrem.


Dependendo da idade, os bebês na clínica Musha recebem uma dose que compreende as vacinas contra difteria, tétano, hepatite B e influenza tipo B; gotas contra a pólio; vitamina A; e vacina contra a bactéria pneumococo, principal causadora da pneumonia, recentemente introduzida graças a uma doação da Gavi.


Todas as crianças são pesadas numa balança doada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A entidade da ONU se dedica à luta contra a desnutrição infantil, que em Ruanda gira em torno 45%.


Enquanto algumas mulheres esperam a vez de imunizar seus filhos, outras fazem fila para conseguir a consulta de planejamento familiar, onde a enfermeira Mediatrice Ingavire pergunta quais são as dúvidas e lhes administra a dose de anticoncepcionais que tiverem escolhido.
Angelike Mukamusabura, de 25 anos, questiona sobre pequenas hemorragias após começar o tratamento; Florence Mukazinake, de 32 anos e mãe de três filhos, se preocupa porque a menstruação desapareceu; Anasi Nikaguise, de 20 anos e com um bebê, se pergunta por que emagreceu desde que iniciou o tratamento anticoncepcional.


Ingavire acalma as três, dizendo-as que todos os sintomas "são normais" e lhes lembra sobre a importância do planejamento familiar, efetuado na maioria das vezes (85%) com uma injeção que tem efeito trimestral. As demais recebem tratamento por pílulas (10%) e outros meios (5%).


"A injeção é o método mais efetivo, o que melhor pode controlar, e o que permite às mulheres esconder a anticoncepção de seus maridos, já que muitos não querem", assinala Vestine Mukemmana, a enfermeira encarregada pelo setor de planejamento familiar da clínica.


Embora a taxa de natalidade em Ruanda continue sendo de 5,3%, Mukemmana, que faz o mesmo trabalho há 31 anos, não tem dúvidas sobre os avanços conseguidos "porque há 20 anos as mulheres tinham em média oito ou dez filhos e algumas até 15".


Algumas solteiras também vão à clínica, "mas a maioria o fazem escondido", destaca Mukemmana. Ela acrescenta que as relações sexuais começam na adolescência e que, aos 18 anos, muitas meninas já estão casadas e com filhos, embora a idade legal de casamento seja aos 21 anos.


Outro desafio dos funcionários do setor de saúde é convencer as mulheres a irem à clínica para dar à luz, algo que, segundo Proper Makinga, diretor da clínica Musha, ocorre em apenas 60% dos casos.
"Nossa maneira de conceber a saúde pública é holística. Temos de cobrir todas as frentes, por isso não só curamos, mas prevenimos doenças, ensinamos como evitá-las, aplicamos programas de planejamento familiar e fazemos o máximo possível para fortalecer o sistema", assinala, por sua vez, a vice-ministra de Saúde de Ruanda, Agnès Binagwaho.


Para consegui-lo, o Ministério conta com uma rede de 60 mil agentes de saúde voluntários, primeiro ponto de referência sanitária das comunidades; centenas de clínicas - que não podem estar a mais de cinco quilômetros de nenhum cidadão -; e um hospital em cada distrito.


Trata-se de um esforço que, previsivelmente, permitirá a Ruanda reduzir em dois terços sua mortalidade infantil antes de 2015, tal como estabelece o quarto dos Objetivos do Milênio - conjunto de metas de desenvolvimento econômico estabelecidas pela ONU.


epa - european pressphoto agency: Ruanda combina vacina